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Sábado, 10 de Julho de 2004
21 de Março de 1955

Grasshopper.jpg

“O gafanhoto salta, salta, salta, salta / Às vezes voa, voa, voa, voa, voa...”.

Começa assim a cantiga que o meu pai me ensinou, naquele primeiro dia de primavera de 1955. Começa assim, também, a memória que guardo desse dia e de todos os outros que se lhe seguiram e que por ele foram marcados.
Naquela altura, o meu mundo era o de uma garota de seis anos, feitos recentemente. Era um mundo governado pelos meus pais e partilhado com uma irmã - a Nininha - e dois irmãos – o Baíta ou Mano e o Lecas -, todos mais velhos do que eu. Nenhum de nós era chamado pelo nome próprio, o do registo de nascimento, excepto quando o caldo se entornava e a minha mãe dava o primeiro sintoma da situação, chamando o faltoso pelo nome oficial. Eu, talvez por ser benjamim da família, tinha direito a cinco nomes - Quiqui, Guidita, Guidinha, Guida e Margarida. Este, o de registo, nunca ninguém, do círculo familiar ou de amizade, o usava para chamar-me, porque também era o nome da minha mãe.
Como não éramos da realeza, não ficava bem uma ser Margarida I e a outra Margarida II. Assim, em “tempo de paz” era Quiqui, Guidita ou Guidinha e em “tempo de guerra” era Guida.
Havia, ainda, um gato, o Pirolito, que era da minha idade e se portava, também ele, como um irmão mais velho, calmo, condescendente e com a sapiência suficiente para conhecer os seus e os meus limites - virava-me as costas e afastava-se, antes de perder a paciência com as minhas diabruras. Eu bem o chamava, mas ele, lá do alto onde se refugiava, olhava-me, piscava os olhos e ficava com um ar, como se me dissesse: - Tem juízo!
Para lá do muro que circundava a nossa casa - uma casa simétrica, tanto por dentro, como por fora - havia outros mundos, em que, exceptuando as crianças, as pessoas eram, para mim, todas iguais no afecto que lhes dedicava, fossem familiares ou apenas amigos dos meus pais. Eram os Outros.
Dentro de casa, na cozinha, desenrolavam-se acontecimentos que eram, para mim, sempre mirabolantes. Se o meu pai, que era pescador de domingo, ía até à Sra. do Ó, pescar à beira do Lizandro, e voltava trazendo enguias, era na cozinha que se dava o espectáculo "bárbaro" de as preparar, coisa a que nunca assisti, porque aqueles bichinhos, alguns deles bem grandes e todos emaranhados uns nos outros, sempre me causaram repugnância, mas sabia que era sempre uma luta titânica. Se íamos até à Tapada Real (morávamos em Mafra) apanhar amoras, o que era um passeio cheio de emoções, aromas e sabores, era na cozinha que assistia à confecção do doce de que tanto gostava... e ainda gosto.
Era também na cozinha que nós, os miúdos, tomávamos as refeições, enquanto os meus pais as tomavam na sala de jantar, excepto o pequeno-almoço e o lanche, que eram tomados em conjunto, na cozinha. Não sei por que era assim. Quereriam os meus pais aproveitar para conversar sem a nossa presença? Seríamos tão falhos de modos à mesa que não era conveniente comermos na sala de jantar? Não sei, mas também nunca nos interrogámos quanto a isso, fosse porque achássemos natural ou porque tivéssemos coisas mais importantes em que pensar.
As crianças têm sempre muitas coisas pendentes de ponderação. O que vale é que decidem com rapidez. Aproveitam bem a fase da vida em que qualquer questão só tem duas alternativas – não ou sim. Lá virá o tempo em que o “nim” se apresentará, em que a paleta de cores terá mais do que preto e branco. Virão as cores fortes. Primeiro, sem as hesitações do mais escuro e do mais claro. Mais tarde, e é quando as coisas se complicam, virão os tons pastel, os cambiantes, a multiplicidade de decisões possíveis. Para algumas pessoas, é nessa altura que a vida se empastela. Acontece!...

Mas voltemos à minha casa simétrica do direito e do avesso...

Nesse longínquo dia de 1955, à hora do jantar, cada um ocupou a sua posição à mesa e foi tomando a sua refeição. Como cada dia me trazia, sempre, novidades às carradas, tinha de aproveitar esses momentos mais calmos para fazer-me ouvir, perguntando tudo o que me atormentava de curiosidade, e para fazer com que os meus irmãos me respondessem. Com tantas perguntas a saltar-me da boca, é claro que a refeição ia ficando para trás, pelo que era sempre a última a levantar-me da mesa, quando o Baíta já preparava o material escolar para as aulas do dia seguinte, o Lecas já estava, junto do meu pai, a tirar dúvidas sobre os mistérios das contas de multiplicar e dividir e a Nininha já estava imaginando que também andava na escola. Isto era o cenário habitual. Naquele dia, havia uma diferença – a Nininha estava acamada, porque fizera uma pequena cirurgia, pelo que estava de resguardo e até jantara na cama. Portanto, eu estava sentada à mesa, sózinha, dando conta do jantar, que parecia crescer dentro do prato.
De repente, um estampido, a suspensão de todos os gestos e falas... e o silêncio. Não deixei que ele se alongasse muito e fui logo opinando, para quem me quisesse ouvir - "lá está o parvo do Mano a atirar bombas". O carnaval ainda estava presente na minha memória, com todas as cores das serpentinas e todos os sons de estalinhos e bombas menores. Por isso, para mim, era a única hipótese que justificava um ruído daqueles, àquela hora.
Passados poucos segundos ou minutos (ainda não dominava a percepção de tempo), comecei a ouvir correrias pela casa e, então, achei que algo se passava fora do alcance da minha vista. Desrespeitei todas as regras e, mesmo sem ter terminado a refeição, levantei-me da mesa e fui ver o que tinha acontecido. Deparei-me com um quadro que ainda hoje retenho na memória, como se o tivesse fotografado, apesar de não entender nada do que via.
Ao passar, espreitei para o quarto e vi que a minha irmã continuava na cama, sossegada. Os meus irmãos estavam no corredor, mais adiante, entra as portas da sala-de-jantar e do quarto dos meus pais, que ficavam frente uma à outra, e a minha mãe estava dentro do quarto, ajoelhada, murmurando algo para o meu pai, que estava atravessado em cima da cama, de olhos fechados e com um fiozinho de sangue escorrendo do lado direito da testa.
Vi que ele estava ferido e não percebia como tinha sido, porque ainda não sabia que as pessoas podiam magoar-se a si próprias daquela maneira. Vi a minha mãe, enquanto murmurava e chorava, tactear-lhe a cabeça e olhar para o tecto. Segui-lhe o olhar e vi que havia lá um orifício que eu nunca detectara. Para mim, era claro que alguém, que estaria em cima do telhado, tinha feito aquela maldade.
Cheguei-me mais perto deles e ouvi a minha mãe chamá-lo, enquanto lhe apertava o pulso com força. Ele abriu os olhos e logo depois fechou-os, deixando escorrer uma lágrima.
Seria uma lágrima de dor, por ver-nos ali tão abandonadas e surpreendidas? Ou seria a lágrima que alguns mortos libertam, por deslassamento do saco lacrimal?... Para mim, era uma lágrima de dor, digam os cientistas o que disserem.

Foi chegando gente, foram entrando no nosso mundo e achando que nós, as crianças, não devíamos estar ali. Quem chegava, falava em segredo e certificando-se, sempre, de que não estávamos por perto. Mesmo assim, ouvi palavras novas – matou-se, suicidou-se -, pela primeira vez, e, sem ter tempo para perguntar o que queriam dizer, fui levada, juntamente com a minha irmã, para casa do meu tio, irmão da minha mãe. Os meus irmãos, soube no dia seguinte, foram levados para casa dos meus avós paternos. Eles estavam melhor, porque lá tinham um grande quintal, com canteiros e carreiros, com capoeiras, onde as galinhas e os galos morriam de morte natural, além de haver um baloiço que prometia lançar-nos para as nuvens.

Foi assim que, naquela noite, sem saber que a via, enfrentei a morte, senhora de quem nunca tinha ouvido falar e cujas determinações definitivas também desconhecia.
Não voltei a entrar naquela casa, mas sempre que lhe passava e passo em frente, olho para ela. É o maior e mais significativo marco na minha vida.

Nos dias seguintes, não vi, nem soube mais nada e não voltei a ver o meu pai. Alguém deve ter achado que não me eram devidas explicações. Pela forma como fora levada de casa, também devo ter entendido que seria assunto em que não devia falar. O melhor era esperar que o meu pai voltasse. Ele havia de explicar-me tudo, como sempre fizera.
Então, fiquei à espera. Era impossível que ele se tivesse ido embora, sem dizer nada, sem se despedir de mim, sem me perguntar se eu já era capaz de cantar a cantiga nova, sem me enganar e sem ele me ajudar. Sempre me acompanhara nos caminhos novos que me abria. Assim fora, quando me ensinou a reparar nos carreirinhos que as formigas faziam, perguntando-me, depois, se descobrira mais algum novo carreiro e que habilidades eu vira essas formigas fazer. Também, depois de ter-me ensinado a procurar minhocas para lhe servirem de isco na sua pesca desportiva, me perguntava sempre se já sabia como descobrir, no jardim, possíveis “minas” minhoqueiras. Naquele tempo ainda se pescava com isco natural e as minhocas ainda não tinham sido promovidas a objecto de negócio.

Entretanto, a minha mãe, que nunca foi de deixar que alguém, quer da sua família, quer da família do meu pai, decidisse por ela, começou a procurar um cantinho para nós, onde voltássemos a viver, todos juntos, sob o mesmo tecto. E lá nos reunimos – nós e o gato.
Já na nova casa, continuei a esperar o meu pai. Esperei-o durante muitos dias. Ele viria de algum lugar e, talvez, de uma forma estranha, tal como se fora. Quem sabe se ele não viria a aparecer debaixo daquela mesa que usava uma saia?... Ou talvez na despensa?... Ou lá fora, quando eu estivesse a observar as formigas?...
Só dois meses depois é que entendi que a minha espera fora em vão. O meu pai não ia voltar. Eu ia sair de casa, para um colégio interno e isso queria dizer que tudo mudara, definitivamente. Também se falava que os meus irmãos iriam para um outro colégio. Em casa só ficariam a minha mãe, a minha irmã e o gato. Não fazia sentido que nos ausentássemos de onde era suposto ele aparecer para nos ver. Se o faziam, era porque já não valia a pena esperar pela sua visita.

No dia em que entrei no colégio, ainda a minha mãe não me entregara, completamente, aos cuidados daquelas pessoas que eu nunca vira, ainda ela falava com uma senhora que parecia ser a mãe de todas as outras – soube, depois, que era a directora -, quando umas garotas mais crescidas do que eu me “explicaram” tudo.
O meu pai fora para um lugar de onde não voltaria mais, mas estivera sempre perto de mim, em Mafra, no cemitério. Não sabia o que queria dizer tal palavra e perguntei. Fiquei a saber que era um campo, onde faziam covas no chão, para guardar as pessoas que iam dentro de umas caixas grandes de madeira. Algumas dessas caixas, segundo elas me diziam, eram bonitas por dentro, forradas com um tecido branco e brilhante e até tinham umas continhas que pareciam pérolas. Já não quis saber o que eram pérolas. O que me interessava saber era se nesse campo havia flores ou ervas. Disseram-me que sim, que havia flores, umas levadas pelas pessoas e outras que nasciam lá. E havia ervas, também.Fiquei tranquila. Se havia flores e ervas, então, também havia gafanhotos.



(imagem: "Grasshopper" - Fantasy Art - http://www.n7qvc.com/fantasy/index.html

publicado por DespenteadaMental às 11:25
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