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Domingo, 11 de Julho de 2004
Coisas da vida!...
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Um pouco de “história”, para fazer o enquadramento.

Considero-me uma pessoa desenraizada, pessoa de lugar nenhum e de todos os lugares. Sinto-me como sendo do lugar onde estou, em cada momento.
Talvez a vida me tenha incutido uma alma cigana. Quem sabe?...
Hoje, quando fico mais tempo em qualquer lado não é porque me identifique com ele, mas, apenas, por inércia.
Aliás, habituei-me cedo a não me preocupar com o onde-estou, mas, sim, com o quem-sou e já me dá que pensar.
Nasci em Pombal, embora, dos vários locais em que vivi, seja aquele de que guardo menos memória. Nasci lá por mero acaso (o meu pai concorrera e lá estava, como funcionário da Repartição de Finanças, tal como concorrera e estivera em Mafra - onde começou -, em Castro Daire, em Tábua e, depois de Pombal, novamente em Mafra - onde acabou) e saí de lá muito criança - teria uns 4 anos. Assim, Pombal, ainda hoje, é, para mim, mais do que o local de nascimento, um local de passagem.
Depois de nos termos mudado para Mafra (terra do famoso convento que foi tema central de um dos romances de José Saramago – “O Memorial do Convento”), só voltei a Pombal em viagem para outros locais.
Por vivência e afectos, sinto-me mais ligada a Mafra, pois foi lá que comecei a ter consciência dos lugares e das pessoas. É em Mafra e nos seus arredores que passo grande parte da minha juventude. Para férias na praia, enquanto o meu pai era vivo, tínhamos a Ericeira, onde passávamos os 3 meses de Verão. Após a morte dele (suicídio, aos 38 anos de idade), tinha eu 6 anos, fui para um colégio interno, também no concelho de Mafra, numa pequena aldeia chamada Gradil.
Aí, moldei a minha maneira de ser, adquirindo o sentido de grupo e a noção de mim, dentro de um grupo. Aprendi a identificar e a distinguir quem são os "aliados" (no caso, as colegas) e quem são os "adversários" (no caso, as vigilantes-educadoras, a directora e uma ou outra colega tonta, que apostava na denúncia para obter as boas-graças hierárquicas... em qualquer meio e em qualquer idade, há sempre gentinha disposta a "vender-se"...).
Do colégio interno, e após os primeiros anos escolares, saía todos os dias, para fazer o curso liceal num externato particular, localizado noutra vila - Malveira - também pertencente ao concelho de Mafra. Ia de manhã e voltava à noite, sempre sozinha, pois era a única que cursava o liceu. Por força disso, era também a única que andava sozinha na rua. Normalmente, só se saía do colégio interno na companhia de uma outra colega ou saíamos formadas, como era o caso quando íamos todas para a escola ou para a igreja.

Agora, um desvio esclarecedor.

Antes que se julgue que fui alvo de preferência, pelo facto de ser a única interna que cursava o liceu, eu explico.
No colégio interno só tínhamos acesso ao ensino primário, que frequentávamos na escola pública que havia na aldeia. Acontece que a minha mãe sempre planeou que, após o ensino primário, eu sairia para um outro colégio, onde faria o curso dos liceus, tal como os meus irmãos estavam fazendo, cada um o seu curso, e, depois, continuaria os estudos, até onde eu provasse ser capaz. Assim, a meio do 4º e último ano primário, saí do colégio e voltei a minha casa, em Mafra, para poder, em simultâneo, terminar o ano lectivo e preparar-me para o exame de admissão ao liceu. Era assim, naquele tempo.
Terminados os exames, que passei, vieram as férias. A meio delas, senti saudades do colégio. A directora, que gostava de mim por eu ser uma criança viva e alegre, que cantava, que dançava, que ria, também estava saudosa e pediu à minha mãe que me deixasse ir passar uns dias, lá. Assim foi e assim fui.
Neste intervalo de tempo, o director e proprietário do externato da Malveira lembrou-se de oferecer, ao colégio, uma bolsa de estudo, que seria aproveitada por qualquer uma das meninas, bolsa essa que contemplaria os primeiros 5 anos de liceu e com efeito a começar no próximo ano lectivo. Só que, como ele muito bem devia saber, nenhuma menina estava preparada para ingressar no ensino secundário, no caso, no curso dos liceus, porque o exame de admissão era algo que nenhuma das internas fazia, porque era um exame suplementar que só tinha sentido no caso de se continuar os estudos. Por isso, eu saíra para o fazer.
Talvez a oferta tivesse, apenas, um objectivo publicitário - a notícia de tal generosidade sairia no pequeno jornal que o colégio publicava - e sem qualquer custo - nenhuma menina estava apta a frequentar o ensino secundário.
Para decepção e custos do amável director, eu fui desviada do meu destino e fui a (in)feliz contemplada, porque a directora do colégio interno não queria perder tal oferta e pensou que indo eu, de imediato, seguraria a bolsa e, quando eu terminasse, ela conseguiria manter a oferta em vigor, dando a outra criança a hipótese de estudar. Então, falou com a minha mãe, explicou-lhe qual era a intenção e, um pouco a contra-gosto, a minha mãe anuiu e eu retomei o meu lugar como interna, para mal dos meus pecados e arrependimento da minha mãe, até ao fim dos seus dias. Mas isso só soubemos depois.
A partir dessa altura, passei a ter uma vida dividida entre dois cenários antagónicos – no colégio interno era a “abelha-rainha” e outras coisas simpáticas, porque saía para estudar; no externato era a “gata borralheira”, porque o frequentava por favor. Esquecia-se o director de que, em cada início de ano lectivo, os pais que acompanhavam as suas crianças ao novo local de ensino queriam saber quem era a menina do colégio do Gradil que ganhara a tal bolsa de estudo, talvez para verem se era verdade, talvez porque essa magnanimidade fora determinante na escolha que haviam feito quanto ao externato para onde iriam encaminhar os seus filhos.
Assim, além de “abelha-rainha” e “gata borralheira”, também era “artigo de exposição”. Só eu!...
O que vale é que, além de ser uma criança alegre, já era uma criança psicologicamente forte e aguentei aquelas marés contraditórias, sem grandes danos, apesar do tratamento que quer o director do externato, quer a sua excelentíssima esposa, que também era professora, me dispensavam. Eu, que entrara no liceu com 9 anos e, sem ser uma aluna excelente, não perdera qualquer ano lectivo, fui perdendo o entusiasmo ao longo do tempo, até que cheguei ao 5º ano sem qualquer motivação, só com raiva e chumbei no exame. Toda a gente me condenou, excepto a minha mãe a quem, por fim, eu contei tudo o que passara durante todo aquele tempo. Nunca o fizera antes para não a atormentar, mas era chegada a altura, pois não ia aguentar mais um ano naquele inferno. Foi uma decisão acertada, porque me salvei de ser “atropelada” pela vida e vir a ficar uma pessoa amarga ou com traumas.
Perante o que lhe relatei, a minha mãe foi conversar com a directora do colégio interno e, como tudo tem limites, já fiz a repetição do último ano do curso em Mafra, porque a hipocrisia do generoso director e a falta de solidariedade da directora do colégio interno para com a minha mãe, excederam tudo o que estávamos dispostas a suportar. É que, ao fim e ao cabo, eu fora usada como peão de brega, para segurar uma bolsa de estudo que, para meu azar, fora oferecida por quem julgava não ter de concretizar a oferta.
Com este desenlace, também perdi o contacto com o meu padrinho de colégio, um assinante do jornal, o Sr. Domingos da Silva Borges, português que vivia no Brasil e que assumira todos os custos inerentes a um curso superior, fosse qual fosse o que eu escolhesse, e de quem sempre retive o nome e a lembrança de verdadeira generosidade.
Fica explicada a razão por que o que poderia parecer um privilégio meu mais não foi do que uma enorme desvantagem. Nem sempre o que parece é!

Voltando ao caminho.

Como já referi, o colégio tinha um pequeno jornal destinado a assinantes, onde, mensalmente, algumas das internas escreviam umas "coisas", numa página que nos era reservada.
Eu, como andava a estudar (era a “estrela da companhia”, a "abelha-rainha", etc., como a directora e as vigilantes, maldosamente, gostavam de chamar-me), ocupava a parte central da página. Era "famosa", digo eu, agora, rindo.
Toda a gente que lia o jornal sabia que havia uma interna chamada Guida e que andava a estudar, mas pouca gente, além de colegas, pessoal do colégio e pessoas da aldeia em que este estava inserido, me conhecia.
Nem sequer o Sr. G (fica a inicial, por respeito pela memória do senhor), dono da tipografia onde o jornal era impresso, me conhecia pessoalmente.
Então, um dia... Passo a contar...

Era verão. As aulas tinham terminado e eu aguardava o dia da saída para férias.
O Sr. G foi ao Gradil, para falar com a directora do colégio e, depois, seguia para a Malveira. Aí, a directora achou que era óptimo se ele desse boleia a uma das internas, que iria à Malveira tratar-lhe de uns assuntos no Banco. Sim, senhora, disse ele. E, sem saber quem era a interna, lá me levou.

Mais uma vez, não fui escolhida por qualquer preferência, mas porque regressaria sozinha e era a única que já estava habituada a fazê-lo.

Pelo caminho, para passar o tempo, o Sr. G foi-me perguntando pelas colegas que escreviam para o jornal e que ele conhecia de nome. Perguntou por uma, por outra, por outra, etc... e eu ia respondendo, até que, às tantas, perguntou:
- E a Guida, como é que vai nos estudos?...
( ...ops!!!... está a tratar-me por você, agora, ou não sabe que sou eu, pensei, mas despachei a resposta)
- Hum... mais ou menos...
Pensei que, em seguida, o Sr. G continuasse com perguntas, mas não. Começou, então, a desabafar a sua solidariedade com a directora, dizendo que "a Guida" era uma ingrata, que a directora queria tanto que "ela" estudasse e fizesse um curso superior, que "a Guida" nem sabia aproveitar a oportunidade que tinha (referia-se ao meu padrinho luso-brasileiro)... que isto, que aquilo... Um mar de “elogios” a meu respeito, enquanto eu pensava: - Mais um que se acha Deus.
Com todo aquele discurso do Sr. G, eu, com o entendimento da vida próprio dos meus 12 anos, já estava a ferver e a pensar que ele estava a criar uma situação complicada, pois o mais natural era que, mais adiante, se lembrasse de querer saber algo de mim, sua companheira de viagem. Preparei-me para isso, embora desejasse que tal não acontecesse, porque haveria constrangimento para ambos.
Como se quisesse piorar a situação, ele continuou a teorizar sobre o mesmo assunto de que só sabia metade e eu a ouvir e a sentir vontade de lhe pedir que se calasse.
Eis senão quando, o sujeito me pergunta:
- E tu, o que fazes?...
Deu-me um repente de crueldade e nem hesitei... queria ver a cara dele, agora, e respondi:
- Eu sou a Guida!...
... O homem quase perdia o controlo do carro e desfez-se em justificações - que eu não levasse a mal, que era tudo para o meu bem... pátátipátátá - nunca mais se calava. Eu, rindo, cá por dentro, ia pensando que nunca mais na vida dele o Sr. G iria falar de alguém que não conhecesse pessoalmente e, menos ainda, com outra pessoa que ele também não soubesse quem era...

Nunca mais me esqueci nem me esquecerei do Sr. G, sobretudo, por ter assistido à atrapalhação de um ser adulto frente a uma garota de 12 anos, ao ser apanhado na “maledicência”. Também não me esquecerei de que me senti um pouco cruel com o Sr. G, descarregando em cima dele toda a sensação de injustiça de que me sentia vítima. Quando ele me perguntou o que é que eu fazia, eu poderia ter dito qualquer coisa e não ter-me identificado, mentindo, omitindo, mas poupando-o, assim, ao constrangimento e, por consequência, poupando-me também a tal situação, mas não resisti à tentação de ver um dos “deuses” engolir as próprias palavras.
Além do mais, sempre me tinham dito que era muito feio mentir...

Foi um episódio que começou por irritar-me, depois, divertir-me e, finalmente, acabou por constranger-me, mas que me ficou como lição prática.
Coisas da vida!...



(imagem: "Country Road" - www.freefoto.com)

publicado por DespenteadaMental às 14:42
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2 comentários:
De DespenteadaMental a 12 de Julho de 2004 às 17:47
Olá, Inquieta. Não tenciono autobiografar-me. Não tenho feitos, nem jeito para tanto. Apenas marcos e episódios. Talvez acrescente mais um ou outro, mas nem isso tenho como certo, por agora. No entanto, obrigada, pelo seu aceno de apoio. Beijoooo...
De inquieta a 12 de Julho de 2004 às 02:51
Oi Por...Tou adorando a biografia...
Tenho tentado te encontrar mas chego sempre atrasada na 11
beijossssssss

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