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Segunda-feira, 7 de Fevereiro de 2005
Quando a pena de prisão já é vista como negócio...
The punishment_Charles Spencelayh_Artcyclopedia.jpg

Quando a pena de prisão já é vista mais como vingança do que como um tempo de reeducação e de indicação de alternativas que levem à reintegração, para piorar, só faltava transformá-la, agora, em negócio.

Nunca estive presa, felizmente. A minha “prisão”, até hoje, limitou-se a 10 anos de internato, que partilhei com cerca de outras cinquenta crianças.
É muito diferente, eu sei, não só pelo regime, como, também, pelo que a ausência de liberdade, nessa altura da vida (a idade máxima possível era de 18 anos) representa. Mas é, exactamente, isso que me leva às considerações que farei a seguir.

Entrar num internato, por vezes, com 2 ou 3 anos de idade, como era o caso de algumas das meninas com quem convivi, e permanecer lá por cinco, dez ou quinze anos, indo a casa, as que iam, apenas nas férias de verão (1 mês), natal e páscoa (1 semana), é como um cortar de asas ao primeiro voo para várias vivências e consequentes apetências.
Assim, “colhidas” ainda tão imberbes, íamos crescendo sem acesso a muita liberdade, mas, também, por desconhecimento, ainda sem o amargo da distância daquilo que essa falta de liberdade nos negava. Apesar desse desconhecimento, as férias tinham o seu encanto, porque voltávamos, por uns dias, ao aconchego da mãe, aos sabores e odores da casa materna, às brincadeiras com os irmãos, à ausência de horários para tudo e para nada...

Naquele universo de cinquenta e tal crianças, além da diversidade dos escalões etários, havia, também, a diversidade de origens, a diversidade de situações familiares e a diversidade de maneiras de ser e, destas, a diversidade da forma de expressá-las.

Com tanta diversidade, as regras eram únicas e imutáveis. Claro que o resultado da sua aplicação era, também, bastante diverso e, por vezes, nada agradável de ver e, menos ainda, de viver.
Se havia colegas que, após uma falta, recebiam o castigo (um raspanete, um puxão de orelhas, uma reguada, a suspensão de um dos recreios ou, o mais pesado, a suspensão do mês de férias) e o cumpriam sem criar outros problemas, porque reconheciam o erro ou porque eram, por natureza, sossegadas, outras havia em que o castigo tinha um efeito contrário. Não eram crianças más. Eram, tão-só, crianças rebeldes, por vezes, sem família ou, tendo-a, sem dela receber notícias ou visitas. Era nessas crianças que o castigo desencadeava um período de faltas e punições sempre em crescendo. Quando já nada tinham a perder, então, era a rotura total. O inferno!
E éramos jovens com o máximo de 18 anos.

Agora, imaginemos mulheres e homens de 30, 40, 50 anos, sem liberdade, longe de tudo e de todos, sujeitos a regras muitas vezes absurdas, que os infantilizam, e sem perspectivas de um modo de vida diferente daquele que tinham e pelo qual foram penalizados...
Foi nisto que pensei, ao ler esta entrevista. E revoltei-me, ao ler este destaque.



(imagem: “The punishment” - Charles Spencelayh - www.artcyclopedia.com)

publicado por DespenteadaMental às 22:07
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8 comentários:
De DespenteadaMental a 9 de Fevereiro de 2005 às 00:57
JRD,
Aos abutres nada basta e nada repugna. Faz parte da sua condição.
Abraço.
De DespenteadaMental a 9 de Fevereiro de 2005 às 00:55
'123de4',
Pensar, pensa, só que de forma enviesada e perversa.
Abraço.
De DespenteadaMental a 9 de Fevereiro de 2005 às 00:54
'tounalua',
Em relação ao benefício da dúvida que está disposta a dar à gestão privada das prisões, não vale a pena. Veja o que o entrevistado declarou:
"Com o colapso da bolsa [1999 e 2000], também houve um colapso da especulação das prisões. Houve uma série de escândalos [como o da Wackenhut Corrections, acusada de tratar os reclusos de Jena, na Louisiana, "como animais de quatro patas, que andavam descalços, com a roupa suja e, com frequência, tinham de lutar pela comida"].
Como vê, neste momento, já não há lugar para dúvidas.
Abraço.
De DespenteadaMental a 9 de Fevereiro de 2005 às 00:48
'mfc',
Tens razão! Vai sendo essa a realidade, mas não basta para que eu me habitue a ela. Quero continuar a indignar-me com esta forma de ver, em tudo, uma forma de lucro, até na desgraça dos outros.
Abraço.
De JRD a 8 de Fevereiro de 2005 às 15:27
O seu excelente texto devolveu-me as leituras da minha adolescência -algumas perturbadoras, reconheço agora.
É patológica esta obsessão pela privatização em que até as prisões, já fazem (há muito) parte dessa realidade obscena.
Basta! É preciso denunciar a opção pela "Alcatraz lucrativa".
De 123de4 a 8 de Fevereiro de 2005 às 15:05
Apenas por uma questão económica, esta decisão..Muitos presos, muitas prisões, pouco dinheiro, sector privado. Quem pensa assim...não pensa!
De tounalua a 8 de Fevereiro de 2005 às 08:01
Vivi toda a escola em regime de semi-internato: entrava de manhã e saía à noite. Conheço bem a rigidez das regras "porque sim" que quem não sabe mais institui. Dá demasiado trabalho, exige demasiado empenhamento humano tratar cada pessoa como um indivíduo... Do artigo que indicaste ficou-me uma frase:"Pôr o lixo debaixo do tapete". Nada se resolve, nada se constrói, arruma-se o incómodo para longe da vista, por um curto espaço de tempo e fica tudo com muito bom aspecto...
Há ainda outra coisa que me assusta: a gestão (não sei se participada) por uma entidade de cariz religioso. Reconheço mérito à Santa Casa da Misericórdia, até lhes agradeço muito trabalho social que desenvolvem e que mais ninguém tomou a seu cargo mas, sinceramente, preferia que não tivesse razão de existir. E considero um risco, grave, que o cariz religioso tome um papel relevante na gestão das prisões. Quanto ao sistema de gestão privada, por si, concedo o benefício da dúvida, até prova em contrário. É que a gestão pública, já nós conhecemos bem.
De mfc a 8 de Fevereiro de 2005 às 03:21
Nesta sociedade econométrica, não te admires de nada.
Tudo se compra e vende, mesmo sentimentos, como se de coisas se tratasse!

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