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Terça-feira, 13 de Julho de 2004
Uma conta e vários reencontros
Convento de Mafra.jpg



Chegar a Mafra a meio da manhã de um dia de sol, sentir uma brisa (isto, quando o vento acorda preguiçoso, pois Mafra é uma terra ventosa, dizendo-se, por graça, que não é de admirar, uma vez que tem lá o Convento), mas, dizia eu, chegar, sentar na esplanada, pedir uma bica e ficar a ouvir o Xico Zé (Francisco José Alves Gato) a ensaiar, uma nova ou uma velha peça musical, no carrilhão é um gosto e um agradável reencontro com memórias da minha infância.
Bom... era, porque não sei se o Xico Zé continua a “teimar” em tocar o carrilhão. Que “teimoso” que ele teve de ser para conseguir que lhe concedessem o privilégio de dar uso e vida a tão vetusto instrumento, que, penso eu, sem uso, estaria condenado a paralisia, por artroses ferruginosas e não só, como, aliás, já esteve.
Esta “teimosia” recebeu ele de herança pelo lado paterno.
O seu pai, Francisco Alves Gato, foi, desde que me conheço como gente e em Mafra, o carrilhanor oficioso. Quando, após longos anos de quietude degradante o carrilhão (um dos carrilhões, porque são dois) foi recuperado, alguém com comprovada, altíssima e finíssima visão das coisas decidiu que, para tocar o carrilhão, era necessário ter o curso de carrilhanor, o que não era o caso do pai do Xico Zé, que era um amante e executante de piano, dando-se ao luxo de transpor músicas deste para carrilhão, tal como o filho, depois, fazia (faz?). Assim, por falta de curso, o senhor viu-se impedido de continuar com este trabalho de amor, embora o tivesse feito durante muitos anos.
Faz lembrar um conto, creio que de Ibsen, sobre o ex-sacristão da Abadia de Westminster.
Lembro-me de que o curso foi concretizado e entre os alunos estavam o Xico Zé, o António Cunha, um dos padres do seminário de Mafra e mais outras três ou quatro pessoas.
Acabado o curso, com aprovações, penso que uma delas foi a do Xico, quem fez os concertos de verão foi o francês Jacques Lannoy. Embora se trate de uma sumidade nesta área, creio que o factor determinante foi a triste e velha ideia de que os estrangeiros são sempre melhores do que nós – complexo de pobre... de espírito.
Foi de tal forma clamorosa esta situação, que o Grupo Cénico de Mafra - de que tive o privilégio de fazer parte -, dirigido, movido e motivado pela saudosa Manuela Paulino, que escolhia e ensaiava as peças de teatro e escrevia as letras com que satirizava as situações anedóticas da vila e arredores, letras que eram cantadas com músicas que andavam na boca de toda gente, nesse ano (meados da década de 60) teve um número dedicado ao carrilhão. Tanto quanto ainda me lembro, dizia algo como:
</p>

Dizem, não sei se isto é certo,
a ferrugem deu-lhe abalo
e quem passar ali perto
pode apanhar com um badalo.
Para o caso remediar,
acreditem que não minto,
terá de ressuscitar
o D. João V.

... ... ... ... ...

O mafrense lamentava
que os seus sinos não tocassem
e a todos implorava
que o caso remediassem.
A Gulbenkian entendeu
seus lamentos, seus clamores
e um curso promoveu
para carrilhanores.

E o carrilhão noite e dia badalou - dó ré mi fá sol lá si dó
Desgraçado muito cansado ficou - dó ré mi fá sol lá si dó
Três semanas o pobre nisto levou - dó ré mi fá sol lá si dó
E p’ra quê, se ao fim de tanto ré mi fá,
só toca o Lannoy, só toca o Lannoy?!...


Penso não ter sonhado que o Xico Zé, em tempos, precisou de recorrer a uma artimanha, para conseguir aceder ao local onde o carrilhão está instalado e poder ensaiar e tocar.
Até poderá parecer que ele precisaria de tal actividade para sobreviver, mas não é verdade.
Fazia-o por gosto, tal como o pai sempre o fizera.
Por profissão fazia algo bem diferente, embora também localizado nas alturas – era piloto da TAP.
Assim se deduz que não era ele que precisava do carrilhão, mas, sim, o carrilhão que precisava de estar entregue à gestão de alguém menos provinciano, de alguém que acreditasse na capacidade do jovem carrilhanor.

Voltemos ao dia de sol e com uma brisa soprando ligeiramente o pó do Largo do Convento, como vulgarmente chamamos ao que julgo ter como denominação oficial, Terreiro D. João V.
Cheguei a Mafra, sentei-me na esplanada fronteira ao Convento, que hoje se apresenta, como se vê na foto, com um ar claro e jovial - dizem que é o aspecto original... não sei, apesar da idade, não sou do tempo das suas origens e sempre o conheci cinzento e sisudo - e fiquei a ouvir o ensaio de carrilhão, enquanto fazia tempo para ir almoçar, antes de dirigir-me ao hospital, para visitar a minha mãe.
Ali estive, ouvindo e lembrando o tempo em que o som do carrilhão envolvia as noites de verão numa magia tão grande que não sei descrever. Saíamos de casa e vínhamos passear para o Largo. Ainda não havia tv, felizmente, porque, se houvesse, certamente que tal passeio não nos arrancaria à estupidificação encantatória do aquário-seco e não apreciaríamos, nem registaríamos a beleza de tais concertos.
Eram noites mágicas, mesmo, porque a iluminação do Largo não era forte, o que fazia com que o Convento ficasse na penumbra e, por consequência, as altas torres em que os carrilhões estão instalados em maior penumbra ficassem, pelo que o som parecia vir do céu. Só mesmo ouvindo... mas à noite!

Acordei deste sonho-de-olhos-abertos e era hora de ir até ao restaurante, para almoçar. Lá fui.
Quando me aproximava da porta, vindo do lado oposto, vi um sujeito que se encaminhava, também, para lá. Cheguei primeiro e nem precisei de fazer uso da hipotética gentileza dele – entrei à frente. Dirigi-me para uma das mesas e sentei-me. Ele fez o mesmo, noutra mesa, claro! Ainda nem nos tínhamos familiarizado com a cadeira, já o empregado se me dirigia a perguntar se não me importava que aquele senhor se sentasse na minha mesa, porque o restaurante, embora estivesse vazio, tinha muitos clientes e era um prejuízo (ele não disse isto, mas era isto o que o movia) duas mesas, cada uma delas só com uma pessoa. Olhei melhor para o futuro companheiro de mesa e não vi nada que pudesse pôr em causa o sossego da minha refeição e disse ao empregado que, por mim, tudo bem. A mesma proposta foi feita ao outro comensal que, de imediato, se levantou e veio sentar-se à minha frente. Boa tarde... Boa tarde... e ali ficámos mudos e quedos que nem penedos, esperando que o empregado trouxesse as ementas.
Talvez para dar um ar de à-vontade, o meu parceiro de mesa pegou no jornal abriu-o, como se levantasse um muro entre nós, e começou a ler, penso eu, porque não o posso garantir. Ao ver que o “trunfo” era aquele, resolvi “assistir” e tirei o livro que levava comigo, para me ajudar a passar os tempos de espera, e comecei a ler, mesmo. O curioso é que o livro era “O macaco nu” de Desmond Morris, no qual já lera algo sobre a dificuldade que os humanos têm em enfrentar o olhar do seu semelhante, se for um desconhecido, desviando os olhos, afivelando um ar sério, cortando qualquer contacto visual. Sorri-me e continuei a “assistir”.
Às tantas, do lado de lá da barricada de papel, o leitor de jornal suspendeu a leitura, baixou a “muralha”, olhou para o que eu estava a ler e comentou que também já lera aquele livro. Estava assinada a paz daquela guerra muda.
Começámos, então, a conversar, enquanto ainda esperávamos que chegasse o que tinhamos escolhido. Por fim, o almoço começou a desfilar e nós sempre a conversar. Veio a sobremesa e nós já sabíamos que trabalhávamos, ambos, em Lisboa e em que empresa cada um exercia a sua actividade profissional. Já tinhamos comentado a situação política, o retrocesso que a Revolução dos Cravos sofrera (estávamos no início da década de noventa). Já tinhamos falado das nossas simpatias e antipatias político-partidárias, das nossas preferências em leitura, música, etc...
Bebemos o café, avançámos mais umas opiniões e pedimos as respectivas contas.
Já em ar de despedida, enquanto o empregado não trazia a conta, o meu recente aliado perguntou-me se eu era de Mafra, ou seja, se nascera em Mafra, se morava lá, se estava de visita ou de passagem...
Disse-lhe que não era de (não nascera em) Mafra, mas que fora para lá muito criança, que morara lá muito tempo, embora muito entrecortado no que se referia a presença, pois, ainda criança e por morte do meu pai, saíra para um colégio interno, de onde só voltava a Mafra nas férias; que o meu pai, sim, morara lá desde garoto, que andara por várias cidades por motivos profissionais e que regressara a Mafra, onde acabara por “ficar”, pois se suicidara.
Nesta altura ele perguntou-me se o meu sobrenome era M... Respondi que sim, ao que ele acrescentou que, então, me conhecia. Surpreendida, disse-lhe que, com esse sobrenome, talvez conhecesse as minhas primas, que moravam e sempre tinham morado em Mafra. Não, disse ele, com este sobrenome e com o que você relatou sobre o seu pai, é você que eu conheço, aliás, conhecemo-nos, eu sou o Artur A...
A vida propicia cada reencontro e em tão inesperadas circunstâncias que não pára de surpreender-me.
O Artur A... era, nem mais, nem menos, o nosso amigo de brincadeiras. Ele e a irmã. Morámos em vivendas que ficavam uma frente à outra, partilhámos brinquedos e brincadeiras, estadias na praia, lanches, ora na nossa casa, ora na dele, os nossos pais visitavam-se, mutuamente, enfim...
Tinham passado 37 anos. Nunca mais nos víramos.
Se o empregado do restaurante não fosse um económico gestor de recursos, não teríamos tido a oportunidade de uma refeição animada e com uma conversa interessante.
Se o empregado não fosse tão lento a trazer a conta, apesar do almoço alongado e animado e da conversa interessante, ter-nos-íamos despedido com uma ideia mutuamente favorável um do outro, mas sem sabermos quem éramos.
Foi uma conta que paguei com redobrada satisfação.


(imagem: "Convento de Mafra" - http://www.btinternet.com/~jimperkins/mafra.jpg)

Concertos de Carrilhão:
- Todos os Domingos às 16h (segundo informação da C. M. de Mafra)


publicado por DespenteadaMental às 10:59
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