Quarta-feira, 9 de Junho de 2004
Sonho
Sonho, imaginando viver.
Sonho, sonhando, sem querer.
Sonhos despertos...
Sonhos sonhados...
Uns, de olhos abertos, outros, fechados.
Sonho, meu filme solitário,
do subconsciente ou do imaginário.
Em ambos sou ecrã, sou projector,
artista, realizador
e único espectador.
Sonho, minha fuga, meu abrigo.
Sonho que construo ou se constrói.
Sonho que dá prazer, sonho que dói...
Sonho que é prémio ou é castigo.
Por vezes, o sonho vem sem avisar,
mas, sonhado ou desejado,
um sonho é um sonho...
E como é bom poder sonhar!!!...
Sonho, arena dos meus receios.
Sonho, vitrina dos meus anseios.
Em ambas sou herói, sou expositor,
sou vítima, sou vencedor
e único avaliador.
(imagem: foto criada e digitalizada por Ricardo Monteiro)
(poema ao Ricardo, por todas as fotos sonhadas e todos os sonhos fotografados)
Terça-feira, 8 de Junho de 2004
Rio VIDA
Diz, rio amigo, de onde vens e o que viste.
Fala das margens que, até aqui, banhaste,
daquele olhar que se espelhou, em ti, tão triste,
e que, lavado e mais alegre, então, deixaste.
Fala do barco de papel, sonho-menino,
lançado à água, entre palmas, pulos, risos,
que navegou, rodopiou e, sem destino,
foi ancorar num porto calmo de seixos lisos.
Fala das sedes que se saciam por prazer,
fala das fomes a que acalmas a urgência,
fala de quem de ti se serve, sem te ver,
fala de quem te ama como à própria essência.
Levas, contigo, sinais de vidas tão diferentes:
- gritos de fome, dores e cansaços, esperanças perdidas;
- lixo de festas, sobras de luxos, sonhos prementes.
São paralelas que só em ti vivem fundidas.
Levas o homem que em ti buscou o alimento
e, de mãos nuas, te enfrentou, sem preconceito.
Levas, também, o que buscou divertimento
e que, arrogante, pensou vencer-te, sem respeito.
Tudo isto levas, sem separar, nem distinguir.
(esta força, que tu, rio, tens, nos homens tarda!)
Já prenuncias o mar com o qual te queres fundir,
que tudo aceita, tudo envolve, tudo guarda.
(imagem: "Indaia's Fall" - foto de Ricardo Monteiro - Álbum da natureza)
Segunda-feira, 7 de Junho de 2004
Sombras
Há sombras no meu olhar,
quando estás longe de mim.
Pousam, voam, vão e voltam...
Se uns raios de luz se soltam
logo fenecem e, assim,
tudo o que vejo é sombrio.
Sinto-me só, sinto frio
e há sombras no meu olhar,
quando estás longe de mim.
Quando regressas, por fim,
renasce a minha alegria.
Todo o meu olhar é luz
e até o frio se reduz
(só por estares perto de mim)
a saboroso arrepio,
que corre em mim como um rio.
Da sombra só fica o espaço
que estreitamos num abraço,
quando regressas, por fim...
(imagem: Fotos de Ricardo Monteiro - Álbum da natureza)
Domingo, 6 de Junho de 2004
Eu... projecto de mim
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De cada vez que me olho,
sinto que ainda não sou eu
Esta parte de mim,
que em mim habita,
é, apenas, meia-vida
meio-ser
meio-livro,
que teimo em escrever,
mas não consigo.
Que autor, que não eu,
encontrará a palavra que falta?...
Porá o ponto final?...
Encontrar o ponto certo exige sapiência
e eu ainda nem venci a reticência
(imagem: foto criada e digitalizada por Ricardo Monteiro)
Sábado, 5 de Junho de 2004
Monotonia
Todos os dias, de todos os meses, de todos os anos,
em cada segundo, cada minuto, cada hora,
a rotina impõe-se, sem desvios, sem novidades, sem enganos.
O cansaço, o tédio ou a revolta,
se afloram, esvaem-se em leve açoite da memória,
que logo se amordaça e volta
ao que é, todos os dias, de todos os meses, de todos os anos.
O hábito, esse espartilho, esse embaraço,
feito de gestos já impressos na vontade,
é como grade feita de indiferença e aço,
e, à beira dela, o desejo nasce e morre, mas não arde.
(imagem: Álbum da natureza)
(poema: escrito após leitura de "Sexta-feira à noite" em Rosebud)
Sexta-feira, 4 de Junho de 2004
Saudade...

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Vem, de mansinho, minar-me o pensamento...
Suspende gestos que desenhavam sonhos,
desfaz momentos que, antes, eram risonhos
e fica em mim, como um só sentimento.
Saudade... esta saudade... mar imenso!...
(imagem: Álbum da natureza)
Quinta-feira, 3 de Junho de 2004
Cumplicidade

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Sim, tu, onde caminho, sem medo e sem cansaço,
tens luz, sombra, clareiras e barreiras como eu tenho...
És o meu espelho... Olho-te e vejo-me em ti!
Percebo, então, toda a nossa identidade.
Quando, em mim, a sombra ocupa todo o espaço,
volto para ti os olhos, sinto o teu apelo e venho
iluminar-me com o sol que te sorri,
refrescar-te com a sombra que me invade.
Nesta festa dadivosa e de irmandade,
já não sei quem és tu ou quem sou eu,
sei que, em nós, tudo é tranquilidade
e não importa quem doou, quem recebeu.
(imagem:Álbum da natureza)
Quarta-feira, 2 de Junho de 2004
Em busca de mim
Um seixo fugindo ao pé que o pisa.
Um insecto que ensaia a sua dança.
Uma folha que cai meio indecisa.
Um pássaro pousando num ramo que balança...
Uma brisa musicando o arvoredo.
Um arrulho... será de rola ou pomba?...
Um túnel de árvores... acesso a um segredo?...
Um raio de sol bordando o chão a ponto-sombra...
E o meu olhar, janela aberta da minha alma,
deixa entrar esta pintura em movimento,
que me transborda e transporta o pensamento
ao patamar do sublime, onde sossega e me acalma.</p>
(imagem: Álbum da natureza)
Terça-feira, 1 de Junho de 2004
Caminho do calvário

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Olho-te, Árvore, e sinto vontade de correr a abraçar-te, a animar-te, a ajudar-te, nessa subida penosa. Mas, depois, Árvore, olho o que te rodeia e reduzo-me à minha insignificância.
Vejo que estás entre Amigos.
Uma árvore jovem caminha ao teu lado. Outras árvores preparam a tua chegada.
Os arbustos em redor seguem-te, atentos, prontos a amaciar-te o caminho, se caíres no calvário pedregoso que o Homem te impôs.
Eu, do reino dos homens, queria ajudar-te, a ti, que estás no Reino da Natureza...
Não sei se fui ingénua ou pretensiosa, esquecendo que, mais do que esperares ajuda,
esperas, de mim, respeito, para que, um dia, isso, sim, possas ajudar-me, sendo sombra, sendo apoio, sendo repouso final.
Queria ajudar-te... eu... Pobre de mim!!!...
(imagem: Álbum da natureza)